Sonhando em voz alta

Sonhando em voz alta

Esse momento já vem se escrevendo faz muito tempo na minha cabeça, que apropriado que ele está sendo escrito de fato numa paz de quem está sentada na janela vendo o vizinho regando as plantas domingo de manhã.

Escutei, em um podcast com o Conan O’Brien um dia desses, sobre uma técnica que um fabricante de carros usa para controle de qualidade: o carro, depois de produzido, passa por alguns poucos segundos de uma pressão de ar mais forte do que qualquer coisa que ele passaria na vida “real”. Nesses poucos segundos ou o carro sai ileso, ou peças soltas cedem à pressão comprometendo o produto completo. É uma pressão muito além do que os carros iriam passar na vida cotidiana, mas é um teste essencial para, em um curto espaço de tempo, mostrar o que passa e o que fica. É assim que eu tenho visto o ano 2020.

O meu trabalho, às vezes, eu tento me convencer que é “só” o que faço de 9 às 6, mas o corpo é mais sábio do que isso. O que a mente pode tentar nos convencer ou desconvencer já é muito claro nos sinais do corpo. Desde que fui a uma palestra com o time que criou Moana, em 2016, o meu coração se expandiu com as possibilidades de trabalhar com animação. Uma expansão que faz meu rosto sorrir e meus dedos formigarem só de escrever e relembrar o momento.

A relação com arte tem tido um espaço tão importante na minha vida desde então. Eu vejo como uma janelinha pra minha alma. É um encontro direto com “não sou boa o suficiente”, com “isso não é o que eu deveria fazer”, com tantas expectativas e limitações que a gente se coloca, em qualquer área da vida, mas a arte não me deixa ignorá-las. Mas o corpo, ah, o corpo é sábio. Arte também me faz sentir como uma criança, que muito antes de aprender sobre expectativas e limitações, brincava para se expressar, expandir e conectar. E, simples assim, a arte tem sido um caminho pra experienciar essa vida de maneira mais autêntica.

E aí, quando 2020 mandou um jato de ar mais forte do que qualquer coisa que a gente estivesse acostumado, eu resolvi deixar os parafuros soltos irem e alimentar o que continuou firme e sólido. Desde que eu descobri que há espaço em animação para a moda, isso passou a ser meu emprego dos sonhos. Um sonho discreto, quietinho, um sonho tímido por que caso não desse certo, “nem era tão sério assim”. Mas, venho descobrindo que sonhar em voz alta tem poder. Compartilhar e me conectar com vocês tem tanto a ver com a vida autêntica que eu falei do que uma mudança de carreira.

Nos últimos 3 anos eu tenho feito aulas, desenvolvido histórias e batalhado bastante com a minha ideia de produtividade. Reconhecer que o que te preenche, alimenta e expande, é, em natureza, produtivo. Que esse blog, que nunca me rendeu 1 centavo, guarda tanto de mim e da minha produção. Por isso nada mais lógico do que sonhar em voz alta, aqui, e compartilhar com vocês não só a troca de status de emprego que virá no futuro, mas o processo até lá. Esse processo tem sido tão lindo, grande e poderoso, mal posso esperar pra vê-lo multiplicar.

Obrigada pela companhia e por sonhar comigo.

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